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domingo, 2 de setembro de 2007

A PONTE

4:45 da manhã e o telefone berrava ferindo a madrugada e me tirando de um sono nada tranqüilo.
- Alô!? murmurei, (nunca sei acordar de uma vez).
- Jajah?
- Hm?
- Acorda. Isto é realidade. Ouve as palavras mágicas: "Thedy, Nenhum de Nós, Thedy, Nenhum de Nós, Thedy..."
- Tá! Cala a boca! Já acordei. Que houve? Onde você está?
- Tudo bem. Estou em casa, não sou sonâmbulo.
- ha-ha-ha, retruquei.
Levantei devagar. Procurei meus óculos, peguei o blusão que estava no tapete e fui para o seu quarto. Entrei sem fazer barulho. A cama estava em ordem. Parecia que ele acabara de deitar, aliás, nos últimos dias ele não bagunçava a cama nem o sofá nem o quarto. Estava tão leve que parecia flutuar sobre as coisas. Ou tão pálido que as coisas já não o percebiam.
- Sonhei contigo.
- Ah. Que lindo. Que bom que você me ama tanto que nem dormindo quer ficar longe, respondi, mas aguenta até o sol nascer, tá? dei-lhe um beijo e disse boa noite!
- Segura esse sarcásmo doce, bicha-fora-do-corpo. Ainda não me conformo de você ter nascido mulher e essa alma de Drag... E esse cabelo esvoaçante? Tinha vento no corredor, né?!
Risadas bêbadas.
Deu saudade dos nossos porres que terminavam sempre numa bela vomitada no canteiro da José do Patrocínio ou no portão da casa dele. Bebemos uma vez depois que começou a tomar os remédios e ele foi parar na UTI. O médico disse que ele não poderia beber nada de álcool ou ácido nunca mais. Eu não bebi mais também.
A voz aguda disse: - Foi um sonho muito louco.
- Desde quando maconheiros como a gente, se é que somos mesmo gente, não tem sonhos "loucos"!?
- É sério! Esse foi diferente. Acordei assustado e ainda estou com medo.
- Me conta como foi, proferi sem pensar muito enquanto sentava numa cadeira do lado da cama.
- Ventava tanto que a gente não se ouvia bem. Era numa estradinha, como uma clareira, na verdade parecia ser um rastro, porque era preciso que ficássemos um atrás do outro. Fazia calor. Estávamos cansados, tão cansados que eu me arrastava e chorava de dor. Era uma floresta desconhecida e anoitecia de pressa. Ouvíamos um som de águas correntes que ficava cada vez mais forte na direção em que andávamos. Antes de começar a chover avistamos uma ponte de madeira e corda. Era uma ponte muito velha e próxima dum riacho que parecia ser fundo. Era sujo e eu vi umas pedras com limo em alguns lugares. E eu pensava que não daria tempo mesmo assim.
- Tempo de quê? perguntei.
- Não sei. Tento lembrar, mas não faço idéia para onde estávamos indo. Mas você e eu tínhamos muita pressa. Aí você correu na minha frente e eu até senti medo porque pensei que ia ficar para trás. Sabe desespero de sonho? Quando a voz abafa e você quer gritar mas ninguém ouve?... Mas você voltou mais rápido ainda e me levou até a ponte. Disse que era melhor atravessar logo porque ia chover e se demorássemos mais não chegaríamos a tempo.
- Então não era eu, eu disse rindo, você sabe que não sei nadar e morro de medo de cair na água. Não caminho sobre pinguelas.
Ele me olhou como se não fosse mais ele que estivesse alí e sim um anjo branco, de mãos muito finas e brancas, vestido de branco naquele quarto que tinha cheiros brancos. Acho que tinha uma lágrima no seu olho, ou era o meu que tinha e eu não percebi.
- Você disse que não tinha mais medo porque agora sabia voar. E se nós caíssemos você voaria comigo nos braços.
Um nó enorme na garganta que desceu seco até o estômago onde caiu e ficou queimando as tripas, os rins, o fígado, tudo por dentro. Eu voava e te carregava? Queria te levar agora para o céu. Com minhas asas de cigarra...
Segurei forte na sua mão suada e fria, fechei os olhos e sussurrei confirmando o segredo de minhas asas escondidas: - Atravessa comigo a ponte.

(:Jajá Martiny:)

Um comentário:

Mary Zingler disse...

Muito interessante o teu texto....
Saudades de vocês... É dura a vida sem msn....
Passando pra deixar um oi!!!!

Beijos

Nenhum de Nós

Nenhum de Nós